sexta-feira, 25 de abril de 2008

Estória Primeira

Ela tinha uma idade não denunciável ao primeiro olhar. Sentada na mesa do café mais antigo da cidade, não parecia uma mulher sem história nem de olhar vago preso a futilidades. O sujeito ao lado, camuflado pelo jornal, observava-a. Parecia querer falar-lhe sem coragem para perturbar a privacidade de uma desconhecida. Ela notou, percebeu-lhe a inquietude, não disfarçou e o homem enfiou-se no jornal. Ela levantou-se e perguntou-lhe:
-Porque estava a olhar para mim? Como um bom mentiroso ele negou sem hesitar. E ela voltou a perguntar?
-Porque estava a olhar para mim?
-Não sei... as pessoas olham para as pessoas, penso que é normal!
Ela voltou a sentar-se e a idade tornou-se-lhe pesada no rosto como se tivesse na alma mais cepticismo do que anos de vida.